Até o fim
A short story by P. Putz :)
PROJETO PARLENDA
Short story by P. Putz
Esse é um projeto que criei para o grupo de escrita que tenho com algumas amigas (todas, obviamente, escritoras — algumas já publicadas, outras, como eu, no processo de escrita de seus primeiros livros).
A ideia foi pegar uma parlenda brasileira para nortear a escrita de um conto original e, por voto popular, escolhemos uma.
O resultado do meu está a seguir.
Espero que gostem.
Pati :)
PARTE I
Era outra vida.
Uma na qual Brigitte havia tomado todas as decisões diferentes.
Uma onde Richard nunca tivera ficado, onde ela sentia-se vazia nos lugares em que gostaria de ser preenchida, e preenchida onde tudo o que queria era espaço.
Lá, nessa vida, não é que as coisas parecessem cinza… Elas eram, de fato, menos saturadas. Esse é simplesmente o preço que se paga pela falta de amor. E não é que Brigitte fosse sozinha, mas ela não era… amada. Não por quem mais importava. Não por ela mesma.
Aqui, Brigitte nunca curara seus demônios, apenas os encontrava vez ou outra patinando no fundo do ringue de gelo de seu interior. Debochavam dela, os malcriados. Riram em sua cara quando fracassou, mais uma vez, em consertar as coisas com Franz. Cuspiram em seu corpo caído na penumbra quando as coisas entre eles esfriaram de vez. Quando nem mesmo a chama da paixão fora o suficiente para esquentá-los. Quando até o calor das brigas e discussões amornou, o espaço da relação tornando-se um monólito estéril e sem fim.
Até o fim, isso é.
— Vamos, querida, não é um feitiço tão complicado, não é mesmo? — O homem à sua frente chacoalhava as moedas dentro de uma latinha de metal, desdenhando da bruxa que faria quase qualquer coisa pelo dinheiro.
Brigitte saíra de trás da saleta empoeirada carregando consigo três frascos pequenos. Cada um com uma iguaria diferente: asas de borboleta, asas de libélula, e asas de morcego. Pensou em pregar uma peça e criar uma poção anestesiante, que impediria o homem de performar, temporariamente. Mas sabia que o boca a boca ainda era responsável pela maioria de seus clientes, então não podia se dar ao luxo de perder esse por um simples capricho.
Adicionaria um tônico retardador de efeitos, é claro.
Pegou um punhado de brilho de sereias, reservado apenas para ocasiões especiais, como essa onde ela não queria que nada fosse rastreado de volta a si, e o misturou junto.
— Aqui está. — Brigitte esforçou-se para entregar o frasco e um sorriso. Não queria parecer ingrata, muito menos desesperada pela venda de seus serviços. Sabia que, se demonstrasse o menor sinal de vulnerabilidade, a próxima procura que o homem faria não seria por sua magia.
Talvez chamá-lo de homem fosse superestimar o rapaz que pagava Brigitte. Com o corpo esguio e a desenvoltura de uma salamandra, o pescoço do humano denunciavam que estava na casa dos trinta anos, mas vestia-se e comportava-se como um garoto.
Depois que foi embora, Brigitte exalou profundamente, dirigindo-se para entrar na saleta mais uma vez, quando o sino da porta anunciou visitantes.
Estranho.
Apesar de se esforçar para mudar isso, as pessoas ainda vinham na base de uma a duas por semana. Duas no mesmo dia era algo inédito.
Não jogaria fora a boa sorte e pôs logo um sorriso nos lábios, que não chegou a acender o rosto.
— Pois não? — A voz suave de Brigitte derramava mel em cada sílaba, enquanto os olhos castanhos se debruçavam sobre a visita.
Essa era outra facilidade em ser bruxa: saber como encantar seus clientes a partir de todos os sentidos.
A menina parada ali não passava dos seis anos de idade. Sete, se os pais fossem muito baixos. A inocência ao seu redor exalava como jasmim-do-cheiro, e a reminiscência de cachos dourados da primeira infância desbotavam em uma crescente de cabelos louro-escuro acima deles.
— Brigitte? — A pequena olhava para baixo, sem coragem ou sem vontade de se fazer presente por completo.
— Sim, e você é? — Apesar de valorizar cada moeda e de não ter tanto trabalho durante os dias, a bruxa ainda não decaíra tanto a fim de gastar saliva à toa.
— É mesmo você. — As palavras saíram como um sussurro. Uma constatação, não uma pergunta.
Brigitte esfregou as têmporas, mas não teve tempo de enxotar a vigaristinha para fora antes da menina proferir a frase que alteraria o curso de sua existência para sempre.
— Você é minha mãe.
Se houvessem forças, Brigitte teria rido. Se ali ainda habitasse algum resquício de vitalidade, ela teria chamado a situação de cômica. Mas tudo o que pôde fazer foi revirar os olhos até ficar vesga, e retrucar:
— Nunca tive filhos, e se isso é algum tipo de golpe, precisa melhorar a tentativa. Vá embora antes que eu a expulse.
— Não, espera! Eu sei, não venho daqui. — A garota parecia sincera, mas ou estava mais maluca que a própria bruxa, ou havia aprendido a mentir muito bem.
Brigitte não se deu ao trabalho de voltar-se à pequena, apenas caminhou em direção à porta e a segurou aberta.
— Saia.
Cheia de lágrimas, a menina se curvou ainda mais.
— Eu… — balançou a cabeça em protesto. — Não posso, mamãe. Vim te buscar. — falou levantando o rosto até que sua mirada penetrante se fizesse vista, os olhos castanho esverdeado brilhando.
A bruxa pegou os punhos da menina para levá-la fora dali. Contudo, ao encostar na pele dela, sentiu um fio dourado partir de seu coração. Nada que confirmasse a veracidade da acusação, mas o suficiente para fazê-la pausar.
— Eu vim te buscar, mamãe. — a garota repetiu. — Pra te levar pra casa.
Ao escutar a última palavra, Brigitte congelou. Uma enxurrada de fragmentos começaram a inundar sua tela mental: flores e fadas; a imagem de um castelo na penumbra, a lua alta no céu a única fonte de luz; mãos masculinas, quentes e suaves ao mesmo tempo, passando por seu corpo; o cheiro de chuva vinda da terra molhada há campos de distância misturando-se ao de chá e biscoitos frescos.
Num instante, despertou do invólucro que a envolveu, a garotinha à sua frente a única testemunha de seu teletransporte mental.
— Eu sei que você ainda não sabe quem eu sou, mas precisamos ir. Não consigo explicar agora. — sentindo a hesitação da bruxa, continuou. — Você só precisa confiar em mim, mamãe, como você sempre fala.
Para ser sincera, Brigitte poderia fechar a loja agora. Ela estava mesmo de saída, a procura de um pedaço de pão endurecido para chamar de refeição. Mas fazê-lo significaria se abrir, e se abrir…
— Está bem.
Não se sabe quem ficou mais chocada, se a mulher ou a menina, mas ambas caminharam em silêncio com a pequenina as conduzindo.
Brigitte reconheceu o local, a moradia de Franz estava a poucos passos dali. Sua garganta se fechou e o corpo todo gritara para que fosse embora correndo, mas seguiram caminhando, aproximando-se cada vez mais do local onde a mulher quebrara para além da possibilidade de conserto.
— Eu preciso que você escolha diferente, mamãe. — a voz da garotinha agora estava ladeada de estrelas. Algo etéreo e terreno ao mesmo tempo.
— O que está dizendo? Eu já escolhi, não estamos mais juntos.
— Não, não agora. Antes. Preciso que escolha fazer tudo diferente.
— Sei que ainda não deve conseguir entender, mas a vida é apenas uma série de acontecimentos aleatórios aos quais respondemos da forma como conseguimos. Mesmo que eu pudesse magicamente voltar no tempo — Brigitte suspirou, fechando um pouco os olhos ao exalar. — Coisa que eu não posso, já tentei… — ela disse baixinho, antes de pigarrear e aumentar o tom. — Não tenho como escolher diferente se o que escolho já é o que acho ser o melhor.
— Aqui. — A menina pegou a mão da bruxa, que foi surpreendida mais uma vez pelo fio sendo puxado em seu interno a partir do toque, e direcionou-a até o centro do peito da mulher. — Sempre que estiver em dúvida, você precisa decidir a partir daqui, mamãe.
A bruxa piscou, um milhão de filamentos ligando e interconectando com o toque em seu coração.
— Te trouxe até aqui porque não temos tempo. — continuou a garotinha. — E sei que esse é o marco para você, mas sua trajetória não desandou nesse lugar, mamãe. Há já muito, muito antes você havia desistido, escolhendo errado de propósito. Sentindo uma dor sádica, quase um autoflagelo, cada vez que decepcionava aquela parte mágica em você. — As palavras não faziam jus à idade da garota, mas também, não pareciam mais ditas só por ela.
— Cale a boca de uma vez! — exclamou a mulher, cortando o acesso da menina até sua parte mais delicada. — Eu sou mágica! — cresceu, empinando o peito e aumentando a voz. — Sou a única nessa cidadezinha infeliz que consegue conjurar poções e feitiços. A única que comunga com os alados e os marítimos. A única que enxerga para além do que os é possível ver.
A menina não mais se encolheu.
— Mamãe, é assim que tudo começa, é assim que tudo termina. — A voz de outro mundo estava de volta.
— Eu não sou a porra da sua mãe!
— Pense em todas as suas escolhas. — A menina agora levitava, os cabelos espalhando-se ao redor de sua pequena cabeça como se ricocheteassem contra o vento invisível. — Quando decidiu parar de lutar para mudar o que te incomodava em si. — ela provocava. — Quando desistiu de ser gentil. Quando reivindicou o que achava ser seu por direito apenas a partir da raiva e da revolta, como está fazendo agora. Foi em todos esses momentos que você perdeu. Continua com sua magia, mas sem mais sua humanidade para acompanhá-la, o mundo deixou de fazer sentido.
A bruxa travou, boquiaberta.
Segundos depois a menina empalideceu, tornando-se cada vez mais transparente. Antes de sumir, conseguiu dizer:
— Te vejo de novo, mamãe. Ainda não é o fim.
⋆˖⁺‧₊☽◯☾₊‧⁺˖⋆
Era uma bruxa.
À meia-noite.
Em um castelo mal assombrado.
Com uma faca na mão.
Passando manteiga no pão.
⋆˖⁺‧₊☽◯☾₊‧⁺˖⋆
PARTE II
Ela estava debruçada com os cotovelos na bancada de mármore branco-rajado, os braços cruzados apoiando a cabeça que pesava. A faca de manteiga e o pedaço de pão quente abandonados ao seu lado. Junto de seu orgulho.
— Não sei quanto tempo mais vou aguentar… — Brigitte exclamou por entre suspiros. A barriga pesava tanto que até respirar ficara difícil.
Seu marido se aproximou, envolvendo-a em um abraço por detrás, com cuidado para não sufocá-la. Levantou delicadamente os cabelos da esposa, que escondiam seu pescoço, para ali plantar beijos carinhosos. E pecaminosos.
— Mmmm…
— Richard, ela está vindo, posso sentir.
Brigitte se virou para o marido, lembrando de outra ocasião, à meia-noite, onde se encontravam na cozinha.
Nas paredes, as chamas das velas serpenteavam, refletindo luz nas cúpulas de cobre das arandelas. O ar estava pesado, mas nada diferente de uma madrugada outonal ora abafada, ora fresca. Richard estava sem camisa, uma das poucas vezes que ela o vira assim fora do quarto deles. Ele se aproximou, e a envolveu com menos cuidado do que agora. Com mais gana, beijou-a no mesmo local.
Fizeram amor ali mesmo.
Animalesco, no começo. Beijos e mordidas eram trocadas a cada exalar, os corpos roçando um contra o outro em ritmo insano.
— Brigitte… — Richard dizia, uma súplica em seu ouvido.
Ela era sua, inteira e por completo sua. E ele seu, todo e inegavelmente seu.
Então, porque não…
— Estou pronta. — Uma esposa se confessando ao seu marido.
Richard a levantou com os braços, colocando-a em cima da bancada sem romper o contato entre eles. Olhou-a dentro de seus olhos, abriu aquele sorriso malicioso que sempre a desarmara, e continuou. Atingiram o ápice ao mesmo tempo.
Ela não sabia como ele conseguia durar tanto. Quando o questionou, uma vez, ele apenas respondeu “por você.”
Agora, contudo, Brigitte não queria o lado estóico do marido. Queria apenas vê-lo desnudo de suas armaduras, como ela também precisaria estar para trazer a filha deles ao mundo.
— Por que será que falam que nosso castelo é mal assombrado? — ela desconversou.
— Quer dizer que você não sabe?
Brigitte o encarou, confusa.
— E, em todos esses anos, nunca se questionou antes? — Richard zombou, mordendo os próprios lábios e levantando uma sobrancelha.
— Vossa alteza pode fazer o favor de me contar logo? — Brigitte o cutucava com cosquinhas.
Richard então levantou a mão, pedindo que esperasse. Saiu do cômodo e voltou com uma carta selada. Nada que parecesse justificar a lenda sobre o castelo, já que o envelope branco estava novo.
Até que ela pegou o pedaço de papel.
Ao tocar o selo imaculado em formato de concha perolada, a face de Brigitte se abriu. Uma a uma, memórias estranhas atravessaram sua mente.
Onde ela havia escolhido Franz ao invés de Richard. Toda a dor e sofrimento que isso causou. As vezes onde se odiou, onde se duvidou. O momento onde perdeu as esperanças. O instante onde parou de lutar.
Toda a energia ao redor do castelo pareceu levantar-se e rodopiar como se uma ventania a soprasse. Panos de magia agitavam-se, coloridos, enquanto Brigitte permanecia em transe.
Ela acessara tudo. Tudo.
Inclusive a prece que fizera, o juramento com sua alma, de que viveria diferente.
Se pudesse, refaria a vida toda. Mas não podia. Só tinha como seguir adiante, portanto, o fez. Escolheu diferente dali para frente. Foi reconstruindo sua existência, detalhe por detalhe, até a velhice a levar. Mas não sem antes santificar o castelo que habitou durante seus últimos anos. Colocar ali uma porção de sua magia para que a reconhecesse, em qualquer contexto, e a abençoasse. Não sabia se daria certo, não sabia se a magia seria capaz de atravessar realidades e o tempo, mas precisava tentar.
Para que ela pudesse deixar de presente algo à sua outra versão. Àquela que era mãe da menininha que a visitou. Àquela digna de ter uma filha que a salvou.
PARTE III
De repente, Brigitte acordou em sua cama molhada de xixi, aos três anos de idade.
Ali, ela despertara de um sono estranho. Tinha a certeza de ter vivido uma vida inteira. Duas. Mas a presença da mãe, que entrara em seu quarto informando estar na hora de saírem para colher frutinhas, a atordoou.
A pequena bruxa esfregou os olhinhos, tentando recuperar as últimas lembranças. Ela sabia que eram lembranças. Deitou-se de novo, queria conseguir induzir as cenas a voltarem. Quando estava prestes a desistir, conseguiu: a carta.
Em sonho, ela estava adulta. Grávida. E lia uma carta que alterava o curso de tudo.
Era um encontro entre versões de sua existência. Uma na qual ela estava à deriva, ouvindo sempre apenas a razão e guardando o coração solitário entre muros de pedra.
Na outra, ela era a mulher que segurava a carta. Completa. Inteira. Com defeitos, é claro. Com desafios também. Mas sentia-se tão plena, tão capaz mesmo em suas incapacidades, que não havia dúvidas quanto a quem a bruxinha criança desejava se tornar.
Não fez falta não saber ler, palavras inundaram a mente da pequena Brigitte mesmo assim.
“Siga o coração. Escolha o coração. É por essa não-maldição que estou aqui. A única forma de você, de mim, de nós, vivermos aquilo que desejamos, é ao ouvir o que pulsa.
Não deixe que seu caminho seja traçado por vieses alheios. Forje você mesma a sua trajetória.
Aprenda o que não aprendi, e viva o que não vivi. Porque, no fim, nada conta mais do que uma vida movida por si.
Você vai ver, Brigitte, que tudo aquilo que mais deseja… a deseja de volta também.
Se permita escutar. Se permita conseguir.”
A mensagem não ficaria retida por inteiro. Não importaria. O que precisava estava marcado dentro de si para sempre:
Até o fim, siga o coração.
Escolhi escrever esse conto dessa forma porque acredito piamente que a nossa existência coexiste em um infinito de possibilidades, e podemos sempre, sempre, escolher viver diferente. Não ao alterar o passado, isso não rola, mas ao mudar o futuro, a partir do presente.
Entre realidades paralelas, vidas passadas e futuras, há o encontro sempre permanente da alma. Costuramos sentido e santidade em nossas ações cotidianas. E, com isso, é sempre tempo de viver. 💘


Pati!!!! Meu Deus! UAU apenas!
(E eu amei tanto tanto a sua ideia de desafio! Foi delicioso fazer E ver como cada uma de nós pensa e se expressa de forma única. Brigada por ser companhia em mais esse processo maravilhoso)